\ A VOZ PORTALEGRENSE: Rodrigo Emílio (1944-2004) hoje

terça-feira, junho 27, 2006

Rodrigo Emílio (1944-2004) hoje

"Pequeno presépio de poemas de Natal"

Um poeta como Rodrigo Emílio transporta consigo uma linhagem que o tempo não ousa denegar. Filho do poeta e crítico Rodrigo de Mello, bisneto de Thomaz Ribeiro e familiar directo de um conjunto de escritores e artistas (Branca de Gonta Colaço, Thomaz Ribeiro Colaço, Jorge Colaço…), há nas palavras deslembradas de Rodrigo Emílio uma força poética que interessa reavaliar, agora já depois do tempo da morte, infelizmente depressa chegado.
Não cessa, no entanto, a forja do Poeta. E em boa hora vem a lume, na quadra indicada, este “Pequeno presépio de poemas de Natal”, editado pela Antília Editora do Porto. Abrindo com uma completíssima “Tábua bibliográfica” e um interessante “Elóquio” de António Manuel Couto Viana, a que se somam diversas dedicatórias e um ensaio do Autor sobre o tema da Natividade na poesia portuguesa, a colectânea emiliana convoca, desde o início, os arcanos do dizer lírico: é de desesperança, silêncio e solidão que se faz um trilho multímodo – celebrativo e fluidescente, saudoso e indagador, monárquico e admirativo, unitivo e exemplar, fiel e testemunhal, ultramarino e nacional, beirão e português, sebástico e humano.
Cumprindo uma rota poética natalícia iniciada em 1959 e interrompida em 2004, Rodrigo Emílio é um caso de persistência temática e de ligação à matriz beiroa. Também por aí deve o Poeta ser revisitado, até porque a simbólica da constância da Natividade é sempre um especial encontro com a sua querida Parada de Gonta, aqui tão da nossa circunstância.
Do interessante florilégio de Natal, que é convite directo à compra e à prenda, escolho para exemplo o mais antigo, do Natal de 1959, que afirma, aliás, que o mistério, vindo de longe, está bem perto:

REMINISCÊNCIA DE NATAL
Coaxaram rãs no charco velho…
Ramalhou o sinceiral…
- Que noite é esta noite, aos pés da qual me
ajoelho,

Senão a nítida Noite de Natal,
que destaca da distância
todo o coral
d’ uma infância?
MARTIM DE GOUVEIA E SOUSA
[também no Jornal do Centro, de finais de 2005, e em www.rodrigoemilio.com]