\ A VOZ PORTALEGRENSE: Luís Filipe Meira

quinta-feira, novembro 22, 2012

Luís Filipe Meira

Rodrigo Leão no CAEP
Em Clima de Austeridade
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Rodrigo Leão regressou a Portalegre no último sábado, se a memória não me atraiçoa foi a terceira vez que pisou o palco do CAEP, o que de alguma forma é demonstrativo que há público em Portalegre para a música deste excelente compositor.
Leão vive neste final de ano um momento importante na sua carreira. É já no princípio da próxima semana que irá fazer os dois Coliseus, 2ª feira no Porto e 3ª feira em Lisboa, concertos que terão a participação especial de Beth Gibbons dos Portishead, Neil Hannon dos Divine Comedy e Scott Matthew. Concertos que servirão também de apresentação para a compilação Songs (2004 – 2012) a ser editada no próximo dia 3 de Dezembro. Este disco, que poderá ser o primeiro passo de uma trilogia, reúne, para além de um pequeno instrumental, dez canções cantadas em inglês, sendo três inéditas e as outras sete extraídas dos álbuns Cinema (2004), Mãe (2009) e A Montanha Mágica (2011).
Ora com tudo isto, apesar da noite de chuva e dos constrangimentos financeiros conhecidos, era perfeitamente natural que houvesse algumas expetativas no ar. A sala apresentou-se bem composta, com a nave principal praticamente cheia e as laterais meio ocupadas, por um público de meia idade, mais ou menos conhecedor da obra e que, aparentemente sabia ao que ia, ou talvez não…
Rodrigo Leão apresentou-se com um ensemble mais pequeno do que o habitual, 2 violinos, violoncelo, acordeão e ele próprio ao piano. Esta formação, normalmente utilizada para showcases em salas mais pequenas, apresenta um reportório praticamente instrumental com apenas duas canções no encore, Alfama e o já clássico Pássion na voz de Celina da Piedade.
É verdade que os instrumentais de Rodrigo Leão são de uma beleza rara, alguns, de um ritmo festivo e contagiante, outros, sendo que a interpretação é sempre irrepreensível. No entanto a grande riqueza da música de Rodrigo Leão assenta no cruzamento e na conciliação de elementos de origens várias. A música de Leão é construída a partir de uma base clássica com um toque levemente pop em ambiente festivo por vezes, mas apresentando também um lado nostálgico em que a presença da portugalidade é constante. Quero eu dizer, que, na minha opinião, a música de Rodrigo Leão só atinge a sua real dimensão e a sua plenitude quando apresenta o equilíbrio das duas vertentes, a nostálgica e a festiva, e para este equilíbrio ser consistente necessita de canções no alinhamento. E foi o que o concerto do CAEP não teve. As duas canções finais - muito bem cantadas por Celina da Piedade, diga-se – não apagaram a sensação de desconforto que ao longo do concerto se foi instalando, pela falta de uma voz que trouxesse mais equilíbrio à prestação. Diria que faltou a pitada de sal ao manjar, a cereja em cima do bolo.
E não será por acaso e como referi atrás, que Leão vai editar um disco de canções reconhecendo assim o valor que estas têm no contexto da sua obra.
O compositor que vê este álbum como uma sistematização de um lado mais pop que a sua obra inaugurou em “Cinema” e a que tem voltado regularmente com resultados apaixonantes. E isto porque, como o próprio Rodrigo Leão sublinha, “a pop sempre existiu na sua música, essa vertigem pela canção de recorte mais transparente, capaz de se instalar nas cabeças e nos corações de todos que a ouçam “.
Não obstante todas estas considerações não tenho dúvidas em reconhecer a excelência do concerto.
Mas que houve por ali uma sensação meio desconfortável, também não tenho dúvidas.
Luís Filipe Meira